Para o maestro Rodrigo Carvalho, a quem desejamos um feliz aniversário! Muito obrigada por todo o carinho, amizade e dedicação, pela paciência de nos ensaiar semana após semana, mês após mês, ano após ano. Sem o Rodrigo o Coro Misto não seria o mesmo. Esperamos que tenha um dia feliz!
Reza a lenda que, há muitos muitos anos atrás, no tempo em
que os animais falavam, as plantas andavam e ainda não existiam smartphones, o
mal havia conquistado a cidade de Coimbra e lançado um feitiço sobre os seus habitantes.
Este tornava as pessoas conflituosas, indecisas e incapazes de serem felizes,
instaurando um clima de caos permanente. Neste cenário desolador, brilhava
apenas uma fraca esperança: um grupo de irredutíveis coralistas, da ordem Corus Misticus, que continuava a lutar
para recuperar a paz. No entanto, eles próprios também eram afetados pela
maldição, o que tornava os seus esforços muitas vezes infrutíferos.
Um dia, vindo da mítica terra de Penacova, chegou à cidade
um cavaleiro: Sir Rodrigo Carvalho. A sua fama precedia-o, dizia-se que era
capaz de por ordem nos mais desorganizados exércitos, que dava conselhos que
valiam ouro e que, com os seus conhecimentos musicais, conseguia ensinar até pinguins
a cantar e a trazer alegria a quem os ouvisse. Mal souberam da sua chegada, os
coralistas rejubilaram. E não tardaram a enviaram um representante, cujo nome a
história olvidou, para que fosse falar com Sir Rodrigo e tentar ganhar a sua
ajuda.
Conta-se que a conversa terá seguido mais ou menos este
rumo:
-Respeitável Sir Rodrigo, precisamos da sua ajuda! Não sei
se já ouviu contar, por esse Portugal fora, a história da tragédia de que é
vítima a nossa bela cidade.
-Sim, já é do meu conhecimento. Desloquei-me até aqui pois
pretendo ajudar-vos a reconquistar a vossa paz.
-Siiim! Que bom! Estamos salvos! – o peito do representante
dos coralistas quase transbordava de alegria. – Dar-lhe-emos em troca tudo o que
quiser! Temos partituras infinitas (ainda que um pouco desarrumadas); temos
ouro, prata, marfim, especiarias de todos os tipos; temos sal (mas deste, a
quantidade está sempre dependente das entidades que nos apoiam, e estas já são
escassas, tal como os seus apoios); temos…
-Muito obrigada, mas não posso aceitar. - interrompeu Sir
Rodrigo -Venho ajudar de boa vontade. No entanto, de facto, seria bom ter algo para
adoçar a boca. Aceitaria apenas uma caixa de ovos moles, se tal estiver dentro
das vossas possibilidades.
Lágrimas de comoção assomaram aos olhos do representante dos
cmucquianos. A simpatia de Sir Rodrigo era transcendente, inimaginável, incrível,
inacreditável.
-Sim, aceitamos! Temos acordo. Venha comigo, conhecer o
resto dos coralistas!
E assim foi o início de longas semanas de árduo trabalho. A
princípio, a tarefa parecia impossível, interminável, mas sob a tutela de Sir
Rodrigo Carvalho, a ordem Corus Misticus tornou-se
no coro mais organizado, afinado e belo de se ouvir de toda a redondeza. Com os
conselhos do mestre cavaleiro, o feitiço perdeu efeito sobre os coralistas, o
que só os foi tornando cada vez melhores. Quando Sir Rodrigo finalmente os
achou preparados, voltou-se para o coro e deu o tom certo. Então, saíram porta
fora para a cidade, onde passaram dias a (en)cantar toda a população, levantando
o feitiço que os mantinha presos a uma existência infeliz e abrindo as suas mentes
para o poder da música coral. Não pararam, dia e noite, até não haver uma única
pessoa que fosse indiferente à sua música. Desta forma, resgataram o controlo
da cidade das garras do mal, tornando-a de novo numa terra fértil e numa sociedade
próspera.
Quando a tarefa ficou completa, ao primeiro dia do mês de novembro,
Sir Rodrigo declarou:
-Vejo que a minha missão aqui está terminada. Estava escrito
que assim fosse no próprio dia do meu nascimento. Gostei muito desta aventura
convosco. Os laços forjados na adversidade são fortes e apraz-me a vossa
companhia. Proponho que se faça uma festa! Partilhemos os ovos moles!
-Acredito que falo por todos quando afirmo que sentimos o
mesmo, Sir Rodrigo. Muito obrigada pelo auxílio, pela orientação, por nos ter
dado esperança quando acreditávamos que já não existia nenhuma.
Sentir-nos-íamos muito honrados se quisesse continuar a dirigir-nos por mais
anos que hão de vir, até que outras empreitadas o chamem.
A verdade é que Sir Rodrigo acabou por ficar. A paz reinava
não só por Coimbra, como por todo o país de Portugal. As condições eram
favoráveis e o vento soprava numa boa direção.
Nos dias de hoje, sabemos que passado alguns dias, 1 de
novembro foi declarado feriado. Estamos em crer que este facto está relacionado
com a história que vos acabo de contar, pois é sabido que, neste dia, é costume
oferecerem-se caixas de ovos moles aos maestros. Quanto ao destino de Sir
Rodrigo e da ordem Corus Misticus,
sabemos que continuaram a trabalhar juntos por muitos anos, por tempo sem fim.
Há, inclusivamente, quem acredite que continuam a ensaiar, mesmo nos dias de hoje,
às terças e quartas pelas 21 horas, na sala Fernando Lopes-Graça do edifício da
AAC. Quem sabe se, aparecendo por lá, não poderão encontrar esta figuram lendária?

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